Criança autista que joga tudo no chão: por que acontece e como ajudar
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Criança autista que joga tudo no chão: por que acontece e como ajudar

A criança autista que joga tudo no chão quase sempre tem uma razão que dá para descobrir: ver e ouvir o objeto caindo, sair de uma tarefa, chamar a atenção de alguém ou conseguir outra coisa. Bebês fazem isso para entender causa e efeito, e muitas crianças autistas continuam por mais tempo.

O caminho para diminuir passa por identificar essa razão e oferecer um jeito melhor de conseguir a mesma coisa. Bronca, sozinha, raramente resolve, e em alguns casos piora.

Resumo rápido

  • A análise funcional, descrita por Iwata e colegas e republicada no Journal of Applied Behavior Analysis em 1994, mostrou que o mesmo comportamento pode ter funções diferentes em crianças diferentes, e que o tratamento depende da função.
  • A meta-análise de Ben-Sasson e colegas, publicada no Journal of Autism and Developmental Disorders em 2009, encontrou diferenças sensoriais maiores em autistas do que em crianças com desenvolvimento típico, inclusive a busca por sensações.
  • O relatório do NCAEP (Universidade da Carolina do Norte, 2020) lista a avaliação funcional do comportamento, o reforço diferencial e a intervenção baseada em antecedentes entre as 28 práticas com evidência.
  • O DSM-5-TR, da Associação Americana de Psiquiatria (2022), inclui o interesse incomum por aspectos sensoriais, como luzes e movimento, entre os critérios do autismo.
ilustração de mãe sentada no chão da sala ao lado do filho, que segura uma bola macia, sobre criança autista que joga tudo no chão

Por que a criança autista joga tudo no chão?

A mesma cena, o copo indo ao chão no meio do almoço, pode ter quatro explicações bem diferentes. Cada uma pede uma resposta própria, e acertar a razão é o que faz o plano funcionar.

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1. Pela sensação. O barulho do prato no piso, o quicar da bola, o movimento do objeto voando. Para algumas crianças, isso é tão agradável quanto um brinquedo, e ela repete mesmo sozinha no quarto, sem ninguém olhando.

2. Para sair de algo. A comida que ela não quer, a atividade difícil, o fim da brincadeira. Jogar o prato encerra a refeição, e jogar o lápis encerra a lição.

3. Pela atenção. Toda vez que algo cai, um adulto corre, fala, ri ou briga. Para a criança, até a bronca é atenção, e é uma forma garantida de fazer a mãe olhar para ela.

4. Para conseguir outra coisa. Ela joga o brinquedo que está na mão porque quer o tablet, e o tablet aparece para acalmar a situação.

Como descobrir o motivo do seu filho?

Observe por uma ou duas semanas e anote cada episódio em três colunas: o que estava acontecendo antes, o que ele jogou e o que aconteceu logo depois. Esse registro é chamado de ABC e é a base do trabalho de qualquer analista do comportamento.

Se você notar que…A razão provável é…
Ele joga mesmo sozinho e fica olhando ou ouvindo o objeto cairSensação
Acontece no começo de tarefa, refeição ou fim de brincadeiraSair de algo
Ele olha para você logo depois de jogarAtenção
Acontece quando alguém nega algo que ele querConseguir outra coisa

Muitas crianças têm mais de uma razão, e a mais frequente costuma aparecer no registro em poucos dias. Se o padrão não ficar claro, leve as anotações para o terapeuta.

ilustração de mãe anotando num caderno à mesa da cozinha enquanto observa o filho brincar, registro do comportamento de jogar objetos no chão

O que fazer quando ele joga pela sensação?

Não adianta proibir uma necessidade sensorial, mas dá para dar um lugar certo para ela. Ofereça objetos que podem ser jogados: bolas macias, saquinhos de feijão, um cesto para acertar, uma caixa onde as peças fazem barulho ao cair.

Combine a regra com frases curtas e sempre iguais, como “bola pode jogar, prato fica na mesa”. Quando ele jogar algo proibido, troque na hora pelo objeto permitido, sem bronca longa. O artigo sobre hiperfoco explica como usar os interesses intensos a favor do aprendizado.

O que fazer quando ele joga para sair de uma tarefa?

Ensine uma forma aceitável de pedir para parar, como um cartão de “acabou” ou o gesto de mão aberta, e respeite esse pedido no começo, mesmo que a tarefa tenha durado pouco. Assim ele aprende que pedir funciona melhor do que jogar.

Ao mesmo tempo, deixe a tarefa mais fácil de começar: menos comida no prato, uma atividade curta com fim visível, o aviso de “faltam dois minutos” antes do fim da brincadeira. Se o objeto foi jogado, a tarefa continua com ajuda, para que jogar não vire a saída.

O que fazer quando ele joga para chamar a atenção?

Aqui a estratégia é inverter onde está a atenção. Quando algo cai, recolha com calma e pouca fala, sem olhar nos olhos e sem sermão. Quando ele está brincando bem, sente perto, comente e elogie, porque é nesse momento que a atenção deve ser farta.

Ensine também um jeito de chamar você, como tocar no seu braço ou dizer “mamãe”. Nos primeiros dias o comportamento costuma aumentar antes de diminuir, porque a criança testa se a regra antiga ainda vale.

Essa é a parte que mais cansa. Saber a estratégia é uma coisa, e aplicar igual todos os dias, inclusive às sete da noite com a louça na pia, é outra bem diferente, e muita família desiste justamente na semana em que o comportamento piora antes de melhorar.

O Método C.A.S.A., da Escola do Autismo, organiza esse caminho em vídeos curtos, com planilha de registro e reforço e exemplos de situações reais de casa, para você saber o que fazer em cada razão sem depender da memória. É ABA simplificada para usar em casa e complementa a terapia com profissional, sem substituir.

Ver como o Método C.A.S.A. ajuda nesse comportamento

O que fazer quando ele joga para conseguir algo?

A regra é que jogar nunca entregue o que ele queria. Se ele jogou o carrinho porque quer o tablet, o tablet não vem naquele momento. Quando ele pedir do jeito combinado, com palavra, gesto ou cartão, o pedido é atendido sempre que possível.

Se o seu filho ainda não fala, comunicação alternativa com figuras é uma forma eficiente de ensinar o pedido, e o artigo sobre autismo não verbal mostra como começar.

O que nunca fazer

  • Dar o que ele queria para o objeto parar de voar, porque isso ensina que jogar funciona.
  • Fazer de cada queda um grande acontecimento, com grito ou risada.
  • Punir com tempo sem o brinquedo favorito horas depois, quando a criança não liga mais a consequência ao que fez.
  • Deixar louça de vidro e objetos perigosos ao alcance enquanto o comportamento ainda acontece.

O que a ciência diz sobre jogar objetos no autismo

O artigo de Iwata, Dorsey, Slifer, Bauman e Richman, publicado em 1982 e republicado no Journal of Applied Behavior Analysis em 1994, criou o método de análise funcional usado até hoje. A ideia central é que o comportamento se mantém pelo que acontece depois dele, e que cada criança pode ter razões diferentes para o mesmo gesto.

A meta-análise de Ben-Sasson e colegas, publicada em 2009 no Journal of Autism and Developmental Disorders, reuniu estudos sobre modulação sensorial e encontrou diferenças maiores em autistas do que em crianças com desenvolvimento típico, incluindo a busca por sensação. Isso ajuda a entender a criança que joga pelo prazer de ver e ouvir o objeto cair.

O relatório do NCAEP, de 2020, inclui a avaliação funcional do comportamento, o reforço diferencial e a intervenção baseada em antecedentes entre as práticas com evidência, que são as estratégias descritas neste artigo. A Nota Técnica nº 23/2025 do Conselho Federal de Psicologia reforça que o plano deve ser individualizado.

Quando procurar avaliação especializada

Procure ajuda se os objetos atingem pessoas, se a criança se machuca, se o comportamento aumentou de repente ou veio junto com perda de habilidades, ou se nada mudou depois de algumas semanas de constância. Um analista do comportamento pode fazer a avaliação funcional completa e montar o plano.

Na rede pública, a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde, que encaminha para o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSij) ou para o Centro Especializado em Reabilitação (CER).

Perguntas frequentes

Jogar tudo no chão é sinal de autismo?

Sozinho, não. Bebês e crianças pequenas jogam objetos para entender causa e efeito, e isso é esperado. Chama atenção quando continua por muito tempo e vem junto com outros sinais, como atraso na fala e pouco interesse em pessoas.

Até que idade é normal a criança jogar coisas no chão?

É comum por volta de 1 ano e costuma diminuir quando a criança passa a brincar de outras formas. Se continua frequente depois dos 3 anos, vale observar a razão e conversar com o pediatra.

Devo brigar quando ele joga as coisas?

Bronca alta costuma funcionar como atenção e pode manter o comportamento. Recolher com calma, falar pouco e ensinar o jeito certo de pedir funciona melhor.

Ignorar resolve?

Ignorar só ajuda quando a razão é atenção, e mesmo assim precisa vir junto com muita atenção nos momentos bons. Se a razão é sensação ou fuga, ignorar não muda nada.

Por que ele joga a comida no chão?

Na refeição, as razões mais comuns são sair da refeição e a seletividade alimentar. O guia sobre seletividade alimentar no autismo traz estratégias para a hora de comer.

Quanto tempo leva para parar?

Com a estratégia certa e constância, muitas famílias notam diferença em duas a quatro semanas. É comum piorar um pouco no começo, antes de melhorar.

Cada objeto no chão é uma pista

A criança que joga tudo no chão está buscando uma sensação, uma saída, a sua atenção ou alguma coisa que quer. Quando você descobre qual, consegue oferecer um caminho melhor, e o chão da sala para de ser o lugar onde tudo acaba.

Se você quer o passo a passo para fazer isso em casa, com registro, reforço e exemplos de situações reais, o Método C.A.S.A. foi feito para isso. Ele complementa a avaliação e a terapia com profissional, nunca substitui, e o guia do Método C.A.S.A. mostra cada pilar.

Conhecer o Método C.A.S.A.

Fontes e referências

  • Iwata, B. A.; Dorsey, M. F.; Slifer, K. J.; Bauman, K. E.; Richman, G. S. Toward a functional analysis of self-injury. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 27, p. 197-209, 1994 (publicado originalmente em 1982). DOI 10.1901/jaba.1994.27-197.
  • Ben-Sasson, A. et al. A meta-analysis of sensory modulation symptoms in individuals with autism spectrum disorders. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 39, p. 1-11, 2009. DOI 10.1007/s10803-008-0593-3.
  • Steinbrenner, J. R. et al. Evidence-Based Practices for Children, Youth, and Young Adults with Autism. National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice (NCAEP), Universidade da Carolina do Norte, 2020. ncaep.fpg.unc.edu.
  • American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). 2022.
  • Conselho Federal de Psicologia. Nota Técnica CFP nº 23/2025. transparencia.cfp.org.br.

Conteúdo produzido pela equipe editorial da Escola do Autismo com base nos documentos citados em Fontes. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional. Última atualização: outubro/2026.

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