
O que fazer quando o autista grita muito: como entender o grito e ensinar outro jeito de pedir
Quando o autista grita muito, o grito quase sempre está fazendo um trabalho para ele: tapar um barulho que incomoda, pedir algo que ele ainda não sabe pedir de outro jeito, encerrar uma tarefa difícil ou só produzir uma sensação de que ele gosta. O que fazer depende de qual desses trabalhos o grito cumpre na sua casa.
Gritar mais alto que ele, mandar calar a boca ou dar o que ele quer só para o barulho parar costuma deixar o grito mais forte com o tempo. Nada disso acontece por falta de educação nem por erro seu, e o caminho que funciona é ensinar um jeito mais fácil de conseguir a mesma coisa.
Resumo rápido
- A meta-análise de Williams, Suzman e Woynaroski, publicada na revista Ear and Hearing em 2021 com 103 estudos e 13.093 participantes, estimou que cerca de 41% das pessoas autistas têm intolerância a sons no momento da avaliação e cerca de 61% em algum momento da vida.
- A revisão de Melanson e Fahmie, publicada no Journal of Applied Behavior Analysis em 2023, reuniu 326 estudos de análise funcional de 2012 a 2022 e encontrou a fuga de tarefas como a função isolada mais comum dos problemas de comportamento.
- O estudo de Carr e Durand, publicado no Journal of Applied Behavior Analysis em 1985, mostrou que ensinar uma frase para pedir ajuda ou atenção reduziu os problemas de comportamento das crianças acompanhadas, base do que hoje se chama treino de comunicação funcional.
- O estudo de Ahearn e colegas, publicado no mesmo periódico em 2007 com quatro crianças autistas, reduziu a vocalização repetitiva sem função de comunicação usando interrupção e redirecionamento para frases simples.

Por que a criança autista grita tanto?
Na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), a pergunta que organiza tudo é “o que acontece logo antes e logo depois do grito?”. A resposta revela a função, e as funções mais encontradas nos estudos são quatro, às vezes misturadas na mesma criança.
📚 Entre para o Grupo de Leitores da Escola do Autismo
Receba conteúdos exclusivos, dicas práticas, novos artigos, materiais gratuitos e participe de uma comunidade de famílias que buscam aprender mais sobre autismo todos os dias.
É gratuito. Basta entrar no grupo.
👉 Entrar no Grupo do WhatsAppO ambiente está forte demais
O DSM-5-TR, manual da Associação Americana de Psiquiatria (2022), inclui a reação aumentada a estímulos sensoriais entre os critérios do autismo. Liquidificador, secador, festa de aniversário, supermercado cheio e até a etiqueta da roupa podem ser insuportáveis, e o grito aparece para cobrir o som ou avisar que passou do limite.
O sinal é o grito vir junto com mãos tapando os ouvidos, olhos fechados ou tentativa de sair do lugar, e quase sempre nos mesmos ambientes.
Ele quer algo e não sabe pedir
Se ele grita e logo depois alguém traz o copo de água, liga o desenho ou entrega o tablet, o grito virou o pedido. Isso aparece muito em crianças que falam pouco, e também em crianças que falam, mas ainda não conseguem formular o pedido quando estão com pressa ou frustradas.
Ele quer sair de algo
Banho, escovar os dentes, lição, sentar à mesa: quando o grito encerra a tarefa ou faz o adulto desistir, ele passa a gritar mais nessas horas. É a função que mais aparece na pesquisa, segundo a revisão de Melanson e Fahmie de 2023.
O grito dá prazer a ele
Alguns autistas gritam, cantarolam alto ou repetem sons agudos porque a sensação é boa, sozinhos no quarto, sem ninguém por perto e sem pedir nada. É a chamada estereotipia vocal, e nem sempre precisa ser eliminada: em casa ela pode ter espaço, e o trabalho fica para os lugares onde o volume atrapalha.
Como descobrir o que o grito quer dizer na sua casa?
Durante cinco a sete dias, anote cada episódio com quatro informações: o horário, onde estavam, o que aconteceu logo antes e o que aconteceu logo depois. Os profissionais chamam isso de registro ABC (antecedente, comportamento, consequência), e uma folha na porta da geladeira resolve.
| O que você observa nas anotações | Função provável | Primeira coisa a tentar |
|---|---|---|
| Grita em lugar barulhento, tapa os ouvidos | Sensorial | Reduzir o som, oferecer abafador, sair por alguns minutos |
| Grita e logo depois recebe um objeto ou comida | Pedir algo | Ensinar a pedir com palavra, gesto ou figura |
| Grita quando a tarefa começa e a tarefa para | Fugir da tarefa | Tarefa menor, pausa pedida do jeito combinado |
| Grita quando você está no telefone ou com o irmão | Chamar atenção | Atenção frequente quando ele está calmo |
| Grita sozinho, sorrindo, sem pedir nada | Prazer sensorial | Lugar e hora combinados para o som, alternativa em público |
Se a tabela não fechar, leve as anotações para o terapeuta ou para a escola. Uma semana de registro mostra mais do que qualquer relato de memória feito na correria da consulta.

O que fazer na hora em que ele está gritando?
Na hora do grito, o objetivo é baixar a temperatura, e o ensino fica para os momentos calmos. Estes passos valem para qualquer função:
- Fale baixo e pouco, com uma frase curta como “tô aqui” ou “barulho alto, né”.
- Reduza o que dá para reduzir: desligue a TV, afaste-se do liquidificador, leve para um canto mais quieto.
- Ofereça o abafador de ouvido se ele já usa, sem colocar à força.
- Espere sem sermão e sem perguntas em sequência, porque cada frase é mais um som para processar.
- Mostre o jeito combinado de pedir assim que ele baixar o volume, mesmo que seja um sinal pequeno.
- Atenda o pedido feito do jeito combinado, e não o grito.
O passo 6 é o que mais pesa e o mais difícil de cumprir. Se o grito for por um biscoito e você entregar o biscoito no meio do grito, ele aprende que gritar funciona; se você esperar dois segundos de calma ou o gesto combinado e entregar nesse instante, ele aprende outra coisa.
Se o grito vier com agressão, autoagressão ou objetos sendo arremessados, a prioridade é a segurança de todos, e o guia sobre crises no autismo traz o passo a passo para esse momento.
Como ensinar outro jeito de pedir no lugar do grito?
Esse é o treino de comunicação funcional, descrito por Carr e Durand em 1985 e organizado como guia prático por Tiger, Hanley e Bruzek em 2008. A ideia é ensinar uma forma de comunicação que consiga a mesma coisa que o grito conseguia, com menos esforço.
Para uma criança que fala, pode ser “água” ou “ajuda”. Para quem fala pouco, um cartão com a figura do copo, um gesto ou um botão que grava a palavra, e o artigo sobre autismo não verbal mostra como começar com comunicação alternativa.
Nas primeiras semanas, atenda o pedido novo todas as vezes e rápido, mais rápido do que o grito era atendido. Ele só troca o grito pelo cartão se o cartão funcionar melhor, e depois de algumas semanas dá para ir esticando a espera aos poucos.
A mesma lógica vale para a fuga. Ensine a pedir “pausa” com palavra ou cartão, dê a pausa curta quando ele pedir e volte à tarefa, que agora fica menor: escovar só os dentes da frente hoje ensina mais do que dez minutos de grito no banheiro.
Numa semana boa tudo isso parece simples, mas às 18h, com janta no fogo e o irmão chorando, a mãe entrega o biscoito no meio do grito porque é o que dá. É por isso que ter os passos já ensaiados, com a frase de cada momento pronta, faz diferença maior do que saber a teoria.
O Método C.A.S.A., da Escola do Autismo, ensina em aulas curtas como agir antes, durante e depois desses episódios em casa, com roteiros e planilhas para acompanhar o que muda. É ABA simplificada para pais e complementa a avaliação e a terapia com profissional, sem substituí-las.
Ver como o Método C.A.S.A. ajuda nos momentos de grito e crise
Como prevenir os gritos ao longo do dia?
Boa parte dos gritos tem hora marcada, e mexer no que vem antes diminui o número de episódios sem depender da reação na hora:
- Avise antes das mudanças com contagem regressiva ou quadro de figuras, porque transição sem aviso é gatilho comum, e o artigo sobre autismo e rotinas mostra como montar esse quadro.
- Leve o abafador para mercado, festa e igreja antes de o barulho começar, e não depois do primeiro grito.
- Dê atenção quando ele está calmo, a cada poucos minutos nos horários críticos, para que ele não precise gritar para ser visto.
- Cuide do sono e da fome, porque criança cansada e com fome tolera muito menos, e o guia sobre autismo e sono ajuda na parte da noite.
Para o grito de prazer, combine um lugar onde ele pode fazer o som à vontade, como o quarto, e ofereça em público uma alternativa que ocupe a boca ou as mãos. O estudo de Ahearn e colegas (2007) reduziu esse tipo de vocalização interrompendo o som com perguntas simples que a criança já sabia responder, repetidas até ela responder três vezes seguidas sem o som.
O que a ciência diz sobre gritos no autismo
A meta-análise de Williams, Suzman e Woynaroski (2021) juntou 103 estudos com 13.093 participantes e estimou em cerca de 41% a intolerância a sons atual entre pessoas autistas e em cerca de 61% ao longo da vida. Para essas crianças, o barulho da casa pesa de verdade, e reduzir o som é parte do tratamento.
As revisões de análise funcional, de Hanley, Iwata e McCord (2003) a Melanson e Fahmie (2023), mostram que o mesmo comportamento pode ter funções diferentes em crianças diferentes, e que a fuga de tarefas é a função isolada mais encontrada. Por isso a intervenção começa pela pergunta “para que serve o grito?”, antes de qualquer tentativa de fazer o som parar.
No Brasil, as Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com TEA, do Ministério da Saúde (2014), e a Nota Técnica nº 23/2025 do Conselho Federal de Psicologia apontam para um plano individualizado, feito a partir da avaliação de cada pessoa.
Quando procurar avaliação especializada
Procure um profissional se os gritos vierem com autoagressão, como bater a cabeça ou se morder, se começaram de repente numa criança que não gritava, se ele perdeu palavras ou habilidades que já tinha ou se nada mudou depois de algumas semanas aplicando as estratégias com constância.
Grito novo e intenso pode ser dor, como dor de ouvido, dente nascendo, prisão de ventre ou refluxo, que a criança não consegue localizar nem contar, e isso pede consulta com o pediatra antes de qualquer outra coisa. Na rede pública, a Unidade Básica de Saúde encaminha para o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSij) ou para o Centro Especializado em Reabilitação (CER).

Perguntas frequentes
Autista grita sem motivo?
O grito sempre tem um motivo, mesmo quando ele não está à vista. Pode ser um som que você nem percebe, uma dor, um pedido ou a própria sensação do grito, e o registro de uma semana costuma mostrar o padrão.
Devo dar o que ele quer para parar de gritar?
Na hora do grito, evite. Espere alguns segundos de calma ou o pedido do jeito combinado e entregue nesse momento, para que ele aprenda que pedir funciona melhor que gritar.
Abafador de ouvido deixa a criança dependente?
O abafador é uma adaptação, como os óculos para quem enxerga mal. Use nos lugares barulhentos e, com acompanhamento profissional, vá testando aos poucos períodos curtos sem ele nos ambientes mais tranquilos.
Por que meu filho autista grita quando está feliz?
Gritar de alegria é comum e pode ser uma forma de expressar emoção forte ou de sentir o som. Em casa pode ter espaço, e em público dá para ensinar outras formas de comemorar, como bater palmas.
Gritar com a criança autista ajuda a parar?
Não. Gritar de volta soma mais barulho a um sistema já sobrecarregado e, para a criança que grita por atenção, entrega exatamente o que ela buscava. Voz baixa e frases curtas funcionam melhor.
Quanto tempo leva para os gritos diminuírem?
Depende da criança, da função do grito e da constância da família. É comum os gritos aumentarem nos primeiros dias, quando o grito para de funcionar e a criança testa se a regra mudou mesmo, antes de começarem a cair.
O grito diminui quando ele tem um jeito melhor de ser ouvido
A casa fica mais silenciosa quando o grito deixa de ser a ferramenta mais rápida que ele tem. Escolha o grito que mais se repete no seu dia, descubra para que ele serve com uma semana de anotação e ensine uma única forma nova de pedir aquilo.
Quem quer o passo a passo pronto para os momentos de grito e de crise, com o que dizer e o que fazer em cada fase, encontra isso no Método C.A.S.A., em aulas curtas para a rotina de casa. Ele complementa a avaliação e a terapia com profissional e não as substitui.
Fontes e referências
- Williams, Z. J.; Suzman, E.; Woynaroski, T. G. Prevalence of Decreased Sound Tolerance (Hyperacusis) in Individuals With Autism Spectrum Disorder: A Meta-Analysis. Ear and Hearing, v. 42, n. 5, p. 1137-1150, 2021. DOI 10.1097/AUD.0000000000001005.
- Melanson, I. J.; Fahmie, T. A. Functional analysis of problem behavior: A 40-year review. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 56, n. 2, p. 262-281, 2023. DOI 10.1002/jaba.983.
- Hanley, G. P.; Iwata, B. A.; McCord, B. E. Functional analysis of problem behavior: a review. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 36, n. 2, p. 147-185, 2003. DOI 10.1901/jaba.2003.36-147.
- Carr, E. G.; Durand, V. M. Reducing behavior problems through functional communication training. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 18, n. 2, p. 111-126, 1985. DOI 10.1901/jaba.1985.18-111.
- Tiger, J. H.; Hanley, G. P.; Bruzek, J. Functional communication training: a review and practical guide. Behavior Analysis in Practice, v. 1, n. 1, p. 16-23, 2008. DOI 10.1007/BF03391716.
- Ahearn, W. H.; Clark, K. M.; MacDonald, R. P. F.; Chung, B. I. Assessing and treating vocal stereotypy in children with autism. Journal of Applied Behavior Analysis, v. 40, n. 2, p. 263-275, 2007. DOI 10.1901/jaba.2007.30-06.
- American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). 2022.
- Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com Transtornos do Espectro do Autismo (TEA). Brasília, 2014.
- Conselho Federal de Psicologia. Nota Técnica CFP nº 23/2025. transparencia.cfp.org.br.
Conteúdo produzido pela equipe editorial da Escola do Autismo com base nos documentos citados em Fontes. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional. Última atualização: outubro/2026.



